Nota técnica entregue pela Sapopema ao ICMBio aponta importância ecológica socioambiental de trecho impactado por dragagem no rio Tapajós
/Estudo elaborado pela Sociedade para a Pesquisa e Proteção do Meio Ambiente (Sapopema), Instituto Aqualie, Associação do Movimento dos Pescadores do Baixo Amazonas e Tapajós (Mopebam) e WWF-Brasil foi entregue ao Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMbio), destacando a relevância ecológica do trecho do rio Tapajós entre as Ilhas do Meio e Ilha Grande. O documento alerta para os impactos ambientais e socioeconômicos que ameaçam a biodiversidade da região, especialmente as populações de botos cor-de-rosa (Inia geoffrensis) e tucuxi (Sotalia fluviatilis), espécies classificadas como ameaçadas de extinção.
“Essa nota técnica surgiu de um estudo que a gente realizou em 2023 e 2024 justamente nessa área que estava ocorrendo a atividade de dragagem. Nosso estudo foi focado no monitoramento de botos tucuxi e cor-de-rosa. E a gente identificou que essas áreas são importantes para a reprodução e as ilhas também são locais de desovas de quelônios” - destaca a pesquisadora da Sapopema, Neriane Nascimento.
Maquinários usados na escavação em área da floresta nacional. autor anônimo.
As Ilhas do Meio e Ilha Grande representam espaços importantes para a reprodução dos botos e outras espécies aquáticas. Monitoramentos realizados desde 2014 apontam um declínio populacional expressivo dos botos devido a fatores como captura incidental em redes de pesca, impactos de dragagens e mudanças climáticas. Dados recentes do WWF-Brasil e Sapopema indicam uma redução de 11% na população do boto cor-de-rosa e 34% no tucuxi na região.
As secas extremas de 2023 e 2024 comprometeram a conectividade dos canais aquáticos, impactando a pesca e a navegação das comunidades ribeirinhas. Além disso, a atividade de dragagem próxima às ilhas representa um risco para os mamíferos aquáticos, afetando sua capacidade de comunicação e forrageamento devido à poluição sonora subaquática.
Mapa do trecho do rio Tapajós localizado entre a Ilha do Meio e Ilha Grande, em frente às comunidades Prainha I, Prainha II, Itapaiuna e Martanxim. Sapopema (2025).
Outro problema identificado no estudo é a pesca predatória realizada por grandes embarcações conhecidas como "geleiras", que utilizam redes de grande extensão, comprometendo os estoques pesqueiros e aumentando a captura acidental de golfinhos de rio. Como resposta, comunidades locais se mobilizaram e estabeleceram o Acordo de Pesca do Tapajós, regulamentando a pesca na região.
Local antes da dragagem. Foto: Ana Carolina Vasconcelos.
Desde 2022, a Sapopema, em parceria com o WWF-Brasil e Mopebam, tem desenvolvido iniciativas para reduzir os impactos da pesca nos botos, como o Projeto Pingers, que utiliza dispositivos acústicos para minimizar interações negativas entre golfinhos e redes de pesca. Estudos com monitoramento acústico passivo também demonstraram que os botos são residentes da região, reforçando a necessidade de proteção do habitat.
“A Sapopema entregou uma nota técnica importante para a gestão da Floresta Nacional do Tapajós, porque ela traz informações subsídios para que o Instituto de Comércio possa tomar decisões em relação à conservação da biodiversidade, não só na unidade, como no entorno, porque também afeta a qualidade de vida das famílias tradicionais do território” - José Risonei Assis da Silva, gestor da Floresta Nacional do Tapajós.
Registro dos testes de pingers feitos pela equipe da sapopema em 2024. foto: ana carolina vasconcelos.
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